
Em Janeiro apareci e decidi partilhar o tamanho de uma nêspera. Hoje apareço e partilho tudo o que o tamanho de uma nêspera já me trouxe. Mas não partilho o positivo, nem sequer o negativo, partilho o que me der na real gana.
E se é para partilhar, então começamos já pelo princípio. E no princípio, ainda que não o tenha dito, cheguei a achar que esta nêspera, que agora é uma couve-flor, se ia dar pelo nome de Aurora. Enganada estava eu, e hoje sei que é um Mário.
Mário quê? Mário só. Mário só? Sim, só Mário!
E aqui está o primeiro problema: o nome. O nome que os pais escolhem e que, em momento algum, pedem a alguém que o questione e que o veja como uma lista infinita de problemas. Ora é porque não tem segundo nome. Ora é porque só vai buscar o lado materno e (acham eles) deveria fazer jus ao lado paterno também (como se o apelido que fica em último não fosse já mais que suficiente). Ora é porque não se dá o nome dos mortos aos que acabaram de nascer (e que mal estaria o mundo se isso fosse um problema). Ora é porque é feio (acreditam as libelinhas). Ora é porque isto, ora é porque aquilo, ora é porque queremos mandar nos filhos dos outros (e essa mentalidade ainda ninguém conseguiu mudar).
E como, por aqui, gostamos muito de seguir a onda do que estávamos a “dizer”, ficamos já na porta de todas as tias Salete e das suas enormes vontades de quererem mandar nos filhos dos outros. Isto porquê? Porque as tias Salete vestiram os filhinhos de vermelho ao sair da maternidade e acham que o filhinho da Catarina também tem de parecer um tomate ao sair do hospital. O que as tias não entendem é que o filhinho da Catarina vai sair de azul se ela quiser, de rosa se ela se lembrar ou de verde se até lá o pai se esquecer que o Sporting este ano é campeão.
Ainda pela gravidez (e pelas semanas que não passam), podemos voltar às tias e ao hábito horrível que roubaram a nuestros hermanos: ver com as mãos. As tias adoram meter as mãozinhas onde só deviam meter os olhinhos e, com isto, quero eu dizer que adoram meter a mão na barriguinha alheia. Na barriguinha onde não pediram para tocar, na barriguinha onde a mãezinha não quer que toquem e na barriguinha que também adoram criticar. Ora porque está grande, ora porque está pequena, ora porque nem se vê, ora porque é achatada, ora porque isto, ora porque aquilo, ora porque com elas não foi nada assim (e ainda bem que não).
Outra coisa que as tias adoram dar (com toda a boa vontade e incapacidade de pensar) é aquela opiniãozinha marota que ninguém pediu, que ninguém quer, e que todas temos de ouvir. E a esta hora vocês já devem estar a pensar que eu também sou muito picuinhas. E talvez eu seja mesmo. Tal como sou chata, tal como sou perita em fazer má cara e tal como sou grandinha o suficiente para pedir opinião quando realmente quero. Se eu não pedir, é porque não quero (principalmente quando vem acompanhada de toda uma sabedoria antiga, que ninguém duvida que tenha resultado, mas que não resulta mais). E se eu não questionar, é porque também não estou interessada em saber que a tia Salete trabalhou até parir e agora acha que todas as mulheres que pararam de trabalhar mais cedo são uns autênticos vidrinhos. Era assim no tempo da tiazinha? Tenho pena. Será mau o facto de isso ter mudado? Não acho.
Valorizo todas as tias Salete deste mundo, mas já não temos de ser assim. Valorizo todas as tias Salete deste mundo, mas os filhos já não se criam aos “pontapés” e as mães já não têm de sofrer eternamente. Valorizo todas as tias Salete, mas o antes já não é mais o agora e se antes era a “vontade de Deus” quando, de 10 filhos apenas 6 chegavam a adultos, hoje já não é bem assim.
E porque hoje já não é bem assim, vale a pena realçar que eu não quero a tia Salete na porta do hospital – e quem diz a tia, diz o tio, o gato, o periquito e todos aqueles que fogem àquilo que é a nossa bolha. Assim como não quero que passem da porta para dentro. Assim como não quero que apareçam lá por casa sem avisar. Assim como não quero que beijem, nem que opinem, nem que agarrem, nem que sintam que podem fotografar (e muito menos partilhar), nem que peguem no meu filho. No filho da tia toda a gente pegou e ele já é um homem feito, eu sei, mas este aqui não é da tia. Este é meu e não vou eu andar aqui a carregar durante nove meses, a babar no sushi que não posso comer, a chorar pelo presunto que não posso provar, a andar como se fosse um pinguim, a cuidar como se só existisse ele no mundo, para depois vir a tia com as suas mãos pegajosas, com o seu lábio cheio de herpes e com a sua gripe aí aos pulos e estragar tudo o que eu fiz.
E não, não é frescura. Assim como também não vai ser um bebé fechado numa redoma, nem um bebé vidrinho. Vai ser um bebé que vai ter tempo para crescer, para conviver, para ser pegado ao colo e para andar na terra com as galinhas da avó e as lambidelas do cão do avô.
Assim sendo, sejamos menos como as tias Salete e mais como as Capicuas desta vida.