Sou Aurora

O filho dos outros

Black and Beige Simple Book Mockup Instagram Post_

Uso os transportes públicos quase duas a três vezes por semana. Dou uso ao metro. Dou uso ao comboio. E dou uso à mente. Essa é a coisa boa dos transportes. Não tenho de conduzir, não tenho de me preocupar, só tenho de me sentar (quando o dia é de sorte e consigo um lugar) e seguir viagem. Posso ler, posso escrever, posso ouvir música, ver séries, ou simplesmente dormir. Mas também posso observar. E não imaginam vocês o tanto que me agrada observar. Não sou subtil. Não sei disfarçar. E a cara de julgamento fala mais alto do que qualquer palavra que eu possa proferir. Às vezes observo coisas boas - e diria que essas são a maioria. No entanto, nem todos os dias são floridos e por vezes observo muita coisa má.

Sou mulher e também sou mãe. Tenho um filho. Um rapaz com 8 meses. E hoje foi um daqueles dias em que agradeci por ter tido um filho, no bom masculino da palavra.Também já tive 12 anos e a filha era eu. Já atravessei a estrada porque senti a presença de alguém atrás de mim. Já ouvi piropos que gostava de não ter ouvido. Já me juntei a uma estranha no caminho de volta a casa após uma noite de Halloween, porque tinha um homem sempre atrás de mim (e não sabem o tamanho da minha gratidão sempre que penso naquela estranha). Já senti o meu coração a acelerar enquanto um carro abrandava e alguém abria a janela para me perguntar se eu não queria ir dar uma voltinha. Já respondi a piropos que ouvi como se não tivesse amor à vida, nem medo do que me poderiam fazer. Gostava de não ter tantos "já fiz, já tive, já me aconteceu" na minha vida. 

De volta ao metro e ao alívio que sinto por ter um Mário e não uma Maria, hoje eu vi um homem nos seus quarenta anos - não lhe perguntei a idade, mas o seu chapéu cinzento e sujo com a frase "it took me 40 years to look like this" acabou por denunciá-lo - a devorar uma menina, nos seus 13/14 anos, como se de um pedaço de carne se tratasse. Não tirou os olhos de cima dela. Não largou as pernas dela. Não desviou o olhar uma única vez até que ela deixasse de estar no seu campo de visão. 

Já estive no papel de filha e agora tenho o papel de mãe. E sabem a pior parte? Sinto-me muito mais assustada agora que sou mãe.

Imaginem terem uma filha, ela sair à rua com uma simples saia, e ter alguém a despi-la com o olhar. Não sei se tenho capacidade para lidar com isso. O que é que eu lhe iria dizer? O que é que eu poderia fazer? 

Iria dizer-lhe que isso é normal, mesmo sabendo que não deveria ser? Iria dizer-lhe para não se deixar intimidar quando, na realidade, o que eu fazia quando tinha a idade dela era corar e imaginar que não estava ali até que eles acreditassem tanto nisso quanto eu? O que é que eu iria dizer?

Quando é que vamos parar de aconselhar as nossas filhas, para educarmos os nossos filhos? Quando é que vamos prevenir, para deixar de lado a necessidade de remediar.

Já repararam que nunca é um homem, mas é sempre um homem? 

E posto isto, agora que penso melhor, já não sei o que me assusta mais. Ter uma filha que vai ter de lidar com os filhos dos outros, ou não conseguir educar um filho para que não seja "o filho dos outros" do qual as nossas filhas precisam de se proteger. Qualquer uma das opções me parece má.

0