
Já escrevi sobre o tamanho de uma nêspera, já escrevi sobre as tias Salete e os problemas do Mário só e hoje escrevo sobre tudo o que aprendi. Escrevo sobre os últimos 56 dias da minha vida e sobre tudo aquilo que não sabia e hoje sei. Hoje eu escrevo sobre o Mário, mas já com ele do lado de fora.
E só para vos contextualizar, o Mário já não tem o tamanho de uma nêspera, mas continua a dar pontapés. O Mário já não é silencioso, e já berra mais do que eu esperava. O Mário já não me proíbe de comer sushi, mas ainda só bebe leite em pó. Ai o Mário... O Mário já tem 56 dias!
O Mário já tem uns quantos dias, mas afinal o que é que eu aprendi?
Aprendi que uma única pessoa consegue arruinar uma experiência cheia delas. Aprendi que uma epidural é boa enquanto dura, e é terrível quando não se faz sentir. Aprendi que nem tudo é um mar de rosas e que pior do que sentir as dores de um parto é sentir a dor de sair do hospital sem levar o meu bebé. Aprendi que deixar esse bebé na neonatologia nos faz chorar como se fôssemos o próprio do bebé, e é horrível, mas também aprendi que não há melhor sítio para o deixar. Aprendi que no meio de todo o nosso caos ainda há espaço para o caos dos outros e aprendi que esse caos até nos faz sentir melhor. Aprendi que partilhar é melhor do que guardar e aprendi que consigo passar horas num cadeirão a olhar para uma incubadora sem me sentir aborrecida. Aprendi que o Mário tem muita sorte, mas não tanta quanto eu.
Em 56 dias também aprendi que ter amigos é incrível. Amigos dos bons. Amigos que perguntam pelo bebé, mas que não se esquecem da mãe. Amigos que param e que ajudam os amigos. Amigos que nos enchem o congelador de marmitas, que se lembram do nosso snack favorito e que sabem como cuidar de nós. Amigos que nos enchem o coração. E que bons são esses amigos. E que sorte eu tenho por ter amigos assim.
Em 56 dias também aprendi que consigo tomar um banho com 75 pausas, 64 colos, 53 embalos, 42 paragens para dar biberão, 31 mudas de fralda, 20 suspiros a roçar a frustração e 1 cansaço enorme. Aprendi que dá para cozinhar com um bebé ao colo, aprendi que dá para estender a roupa enquanto se está a amamentar e aprendi que não me apetece fazer nenhuma dessas tarefas. Aprendi que as opiniões alheias me chateiam mais do que eu esperava, aprendi que o simples ato de ressonar me pode dar vontade de atirar o pai da criança pela janela do quinto andar e aprendi que um bom vinho me sabe melhor agora do que sabia há nove meses.
Também aprendi que o meu filho tem colo a mais, que o meu namorado não sabe colocar o bebé a arrotar e que eu dou leite a mais. Aprendi que não poder dar beijos a um bebé é um crime do mais grave que há, aprendi que afinal os enfermeiros e os médicos não são assim tão sábios e aprendi que por muito que me esforce nunca irei fazer nada bem. A verdade é que também aprendi que, apesar de ter sido mãe, ainda mantenho a euforia de uma boa ironia por volta do meio-dia.
Nestes 56 dias de vida adulta aprendi mais coisas sobre mim e sobre os outros, do que sobre o próprio bebé. Sobre o bebé, aprendi que não há uma fórmula certa para poder lidar com ele. Sobre os outros, aprendi que se me fazem muita comichão então não valem o meu esforço. E sobre mim? Sobre mim eu aprendi que consigo rir num segundo e chorar no segundo seguinte. Aprendi que consigo gostar do meu namorado exatamente na mesma medida em que consigo querer que ele voe pela janela fora. Aprendi que adoro ter o Mário de olho aberto e a sorrir para mim, mas que tê-lo a dormir é uma obra divina. Aprendi que consigo gastar mais dinheiro com Aptamil do que com mercearia cá para casa. Aprendi que agora os saldos são uma excelente desculpa para gastar dinheiro com um bebé. Aprendi que tenho imensa paciência (mas admito que é seletiva). Aprendi que dá para fazer tudo sozinha, mas que é melhor quando estou acompanhada. Aprendi que ir ao supermercado após um dia em casa com um bebé me deixa tão feliz quanto me deixaria uma viagem a Itália. Aprendi que consigo dormir e embalar um bebé ao mesmo tempo, ainda que esse bebé esteja no colo do pai e eu esteja só em modo de piloto automático. Aprendi que podemos ter saudades de uma pessoa, mesmo que ela esteja connosco a toda a hora. Aprendi que sou uma ótima mãe, mesmo que às vezes sinta o contrário. Aprendi que afinal eu não queria assim tanto aquela cerveja que passei nove meses a pedir. Aprendi que não há livro de instruções e que isso não significa que eu esteja a fazer tudo mal. Aprendi que ter um grupo cheio de mães a passar o mesmo que eu é das melhores coisas que há.
Aprendi isto, aprendi aquilo e vou continuar a aprender muito mais. Aprendi que 56 dias passam a voar e que daqui a outros 56 o Mário já vai ser maior de idade, já vai ter uma vida própria e já me vai chamar de velha. Ai, Mário, Mário... Deixa-me aprender mais um bocado!