Sou Aurora

Jardim dos Ecos: quando Má esquece, o Rio lembra

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(um conto para quem finge que sabe o que está a fazer, e para quem ainda acredita que sabe mesmo)

No Jardim dos Ecos, vive uma macaca que sabe muitas coisas, ainda que pense que não. 

Sabe escrever histórias — algumas até com vírgulas e pontos finais no sítio certo —, sabe explicar ideias difíceis com as palavras mais simples, e sabe fazer os outros brilharem — mesmo quando é ela quem mais precisa de brilhar. 

Chamam-lhe Macaca Má. 

Mas ela não é má — só se sente assim, de vez em quando. Má a escrever, má a pensar, má a sonhar, má a ser… má. 

A Má é uma artista invisível. Todos os dias, faz malabarismos com um monte de coisas que ninguém vê: prazos apertados, dúvidas que bailam na sua cabeça, ideias que nunca se organizam e um cansaço que parece não acabar. 

A Má sabe fazer tudo isso muito bem — às vezes pensa que não, mas na verdade é mesmo boa. 

Todas as manhãs, acorda e veste a roupa de pessoa grande — uma roupa bordada com palavras bonitas e abotoada de ideias que terminam com um slide colorido, como quem se prepara para um grande espectáculo (daqueles que até passam na televisão). 

Mas lá dentro — naquele seu pequeno mundo — vive uma minhoca tão silenciosa quanto o maior dos barulhos consegue ser. E não é uma minhoca qualquer: é daquelas que ensurdecem. Daquelas que param, olham para nós e nos deixam a questionar: 

“E se um dia descobrirem que afinal eu não percebo nada disto?” 


No Jardim dos Ecos vive mais alguém. Vive o Rio. 

E o Macaco Rio é diferente. 

O Rio é leve como quem nunca caiu, pequeno como quem nunca cresceu e suave como quem nunca pesou. 
O Rio é possibilidades, é sonhos. É tudo o que ainda podemos ser e tudo aquilo que nunca fomos. 
É alegria, confiança e inocência — daquelas boas, sabem? Daquelas que nos deixam um sorriso no rosto. 

Enquanto a Má calcula, o Rio acredita — mesmo sem se dar conta. 
Enquanto ela duvida, ele voa (às vezes literalmente: pendurado nas árvores, com uma meia na cabeça e uma folha de palmeira às costas a fingir que é capa de super-herói). 


Um dia, sentaram-se os dois numa pedra no meio do Jardim dos Ecos — uma daquelas pedras que existem só para se pensar. 

— Sabes, Rio... às vezes a mãe sente que está só a fingir. 
— A fingir o quê? — perguntou ele, como quem desconhece o que está a acontecer. 
— Que sabe o que está a fazer. Que merece estar onde está. Que é mesmo… boa. 

O Rio cala-se por dois segundos inteiros — um recorde, diria a Má. Depois sorri e responde: 

— Mas tu sabes contar histórias. Dquelas que fazem rir, pensar e, às vezes, até chorar um bocadinho. Sabes usar palavras difíceis como se fossem simples. Sabes fazer panquecas quase sempre redondas — e, mesmo quando não o são, sabem sempre bem. Sabes que o azul do céu muda de nome ao longo do dia, e que, às vezes, também pode mudar de humor. Sabes quando eu preciso de ti, mesmo antes de eu saber. Sabes tudo o que é preciso saber para se ser alguém que cuida. 

Isso… isso não é saber muito? 

A Má sorri — um sorriso pequenino, daqueles que nascem devagar e que aparecem no meio de um dia triste de nevoeiro — e pensa em explicar que o mundo dos crescidos é cheio de dúvidas, que o sucesso é uma coisa estranha e que o medo de falhar tem vários nomes. 

Mas não explica. 

Não explica porque, naquele momento, o Rio está certo. Está mais que certo. E ela quer muito acreditar nisso, como uma criança acredita que um beijo cura tudo. 


A partir desse dia, inventaram um jogo só deles. Um jogo dos bons. 

Sempre que a Má se sente uma fraude — daquelas que finge que sabe, mas que por dentro está só a improvisar — o Rio tem de a lembrar de algo mágico que só ela sabe fazer. 

E sempre que o Rio fica triste por não conseguir fazer alguma coisa, a Má sussurra-lhe ao ouvido que o impossível é só uma palavra coberta de medo. 

Mas o Rio tem a certeza de que ela nem sabe o que “medo” é. 

Então ele diz: 

— Mãe, tu sabes dar nomes às nuvens, mesmo quando estão cinzentas. Tu sabes transformar dias maus em histórias boas, daquelas que aquecem por dentro. Tu fizeste-me. Sabes lá o que é isso. 

E ela pensa, em silêncio, com um nó no peito e um sorriso no olhar: 

Isso… isso já é qualquer coisa. 


O Jardim dos Ecos continua cheio de ruídos, dúvidas e papéis por preencher. 

A Má continua a duvidar dela, mas agora tem o Rio. 

E o Rio é movimento. 
É crescimento numa câmara que a Má adorava que fosse lenta. 
É sonho. 
É verdade sem filtro. 
É esperança com braços compridos, incerteza com pernas curtas e inocência com perguntas difíceis. 

E quando ela se esquece de quem é, ele lembra-a. 

Às vezes com palavras. 
Às vezes com um abraço. 
Às vezes só com o jeito como acredita nela… sem esforço. 

E assim vivem: 

Ela, a contadora de histórias que sabe mais do que acredita saber. 
E ele, o pequeno macaco que acredita em tudo — até mesmo nela. 


Fim.

(Para já)

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