Sou Aurora

"Hoje estou tão cansada"

Nos últimos tempos existo como se alguém me tivesse trocado o corpo por uma peça de exposição: bonita por fora, mas sem garantia por dentro e com variadas peças em falta. O despertador ainda nem tocou e eu já estou atrasada para tudo. Atrasada para me vestir. Atrasada para sair de casa. Atrasada para trabalhar. Atrasada para existir.  

O dia começa a correr antes, sequer, de eu me conseguir levantar e eu sigo-o, descalça, a tentar apanhar o fio à meada que já perdi há uns quantos quilómetros. E toda a gente acha isto normal. Como se viver assim meio torta, meio avariada, meio desgastada fosse só mais um fim de tarde normal.

Temos de ser fortes. Antigamente não havia nada disto. Queixas-te porque és preguiçoso. Precisas de parar porque és fraco.  

Crescemos a engolir frases que nos ensinam a duvidar de tudo aquilo que podemos sentir. E é por isso que, quando começamos a falhar por dentro, a primeira coisa que aparece não é medo, é vergonha. A vergonha de admitir que não estamos bem. A vergonha de não sabermos explicar. A vergonha de não nos conseguirmos encaixar nas versões de nós que sempre achámos que deveríamos ser. Aquelas versões perfeitas. Aquelas versões que nos tiram da cama às 6h, nos devolvem à mesma às 23h e nunca nos tiram o sorriso da cara. Aquelas versões antigas.  

E é nessa vergonha que eu, Catarina, deixo a porta entreaberta. Não porque quero, mas porque se tornou hábito. Encaixar tornou-se hábito. Não incomodar tornou-se hábito. O problema équando dou por mim e aquilo que começou como um simples “hoje estou tão cansada” se transforma numa presença constante, daquelas que se instalam sem pedir licença e que ocupamum espaço que, a certa altura, deixa de ser meu. 

Mas, mesmo assim, eu continuo. Continuo a fingir que está tudo bem. Continuo a fazer o jantar, a responder a mensagens e a cumprir horários, como se não tivesse um fantasma sentado no meu sofá a olhar para mim de lado e a julgar todas as minhas decisões. Vou empurrando o dia com a barriga, como quem enfia tralha naquele terceiro quarto que jurei que ia arrumar em janeiro de 2025, mas decidi deixar andar. A que o corpo começa a dar sinais. Pequenos no início. Depois maiores, até ficarem impossíveis de ignorar. 

E aqui custa-me admitir: há dias em que eu sinto que estou estragada. Não partida ao meio, não avariada de vez, estragada. Estragada como se alguém tivesse montado o meu corpo com instruções manhosas. E agora eu funciono, juro que sim, mas sempre com um ruído de fundo.  

Há dias em que faço tudo, e outros em que não quero fazer nada. Não quero ser mãe, não quero ser namorada, não quero ser amiga. Só quero existir. Mas depois vem a culpa, sempre muito bem amanhada, a perguntar-me porque é que não estou a cumprir o meu papel com aquele sorriso que toda a gente espera ver. 

Mas, Catarina, onde fica a maternidade? Em que potinho arrumas a maternidade?  

Não sei.  

A maternidade amplifica tudo. O cansaço, a impaciência, o medo de falhar. E às vezes dou por mim a repetir frases que sempre disse que não queria repetir. Não por falta de amor, mas porque sei o peso que certas palavras tiveram em mim. E quando me vejo a fazer igual, mesmo sem querer, fico ali parada, a tentar perceber se isto é pura herança emocional ou só um dia mau.  

Entretanto chega o dia. O dia em que tudo rebenta. O dia em que o corpo diz “chega” antes de eu conseguir dizer o que quer que seja. O dia em que já não dá para fingir que está tudo bem. O dia em que me sento no chão da casa de banho sem conseguir respirar nem parar de chorar. O dia em que percebo que não é drama, não é exagero, não é falta de força, é o limite. E é ridículo, absolutamente ridículo, que seja preciso chegar aqui para pedir ajuda. Que seja preciso estar a rebentar pelas costuras para finalmente admitir que sozinha não consigo, nem tenho de conseguir. Como se cuidar da cabeça fosse absurdo. Como se pedir ajuda fosse um capricho. Como se ir a uma consulta fosse admitir derrota.  

A verdade é que há dias em que parar não é escolha, é necessidade. Parar é o mínimo. É desligar a casa toda antes que o quadro elétrico rebente e destrua, em minutos, o que demoramos anos para erguer. E eu insisto em viver com tudo ligado ao mesmo tempo, como se não houvesse consequências. 

Agora tenho dias bons e dias menos bons. Dias em que dormir parece resolver tudo e dias em que dormir não resolve nada. Dias em que acordo leve e dias em que acordo com a culpa sentada ao peito antes de conseguir abrir os olhos.  

A ansiedade chega sempre cedo demais. A vergonha nunca vai embora. E os bloqueios são o meu corpo a dizer “eu já te tinha avisado, mas tu quiseste brincar com o fogo”. E agora eu estou na fase de o começar a ouvir, até porque o problema não sou eu. Nunca fui eu.  

O problema são as empresas que acham que trabalhador bom é trabalhador cansado. O problema é a cultura antiga que diz que mãe boa é mãe exausta, mãe que faz tudo, mãe que não partilha nada com ninguém. O problema é este mundo que nos quer inteiras, disponíveis, produtivas, impecáveis, quando nem sempre conseguimos ser sequer suficientes para nós. 

 

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