
Hoje eu venho falar daqueles cheiros a infância. Venho falar daqueles sabores de criança e das saudades que eles deixam quando, já grandinhos, não temos quem os faça para nós.
Venho falar do arroz com molho do colégio, do empadão de atum da mãe, das bifanas com pão do pai, do arroz de ervilhas da tia, das arepas da madrasta e da sopa de carne, arroz e massa da avó. Venho falar de comida. Mas não é de uma comida qualquer. É daquela que (me) embala.
Crescer é mudar as feições, mudar o feitio, moldar a personalidade e criar rotinas novas. Crescer é deixar a asa que aconchega e construir o ninho que um dia vai aconchegar. Crescer é deixar de ter a sopa feita e começar a deixar a sopa pronta. Crescer é relembrar todas aquelas comidinhas que embalavam, mas que não embalam mais. E se crescer é tudo isso, então não quero crescer mais.
Não quero crescer mais, mas quero voltar. Quero voltar a sentir o sabor daquele arroz com molho do colégio de freiras. Quero voltar a sentir aquela alegria quando chegava ao colégio e percebia que, ainda que a sopa fosse Juliana, o prato era arroz com molho. Quero voltar a sentir aquele cheiro característico da madeira velha do colégio. Quero voltar a sentir o desagrado por ter de ajudar a meter a mesa. Quero voltar a sentir o aconchego de uma cantina cheia e de um barulho que, por muito insuportável que fosse, era o melhor que podia ouvir. Quero voltar às manhãs que começavam com monopólio e aos almoços que terminavam com uma fila para entrar no autocarro. Quero voltar à Raquel, ao Diogo, à Mafalda, ao Luís e à Maria. Quero voltar.
Também quero voltar a sentir o sabor daquele empadão de atum da mãe. Quero voltar a sentir aquela alegria de poder lamber o fundo da taça onde a mãe fez o puré. Quero voltar a sentir o calor do fogão numa casa que era tão pequenina que nem uma casa de banho cabia lá. Quero voltar a colocar o CD da Leopoldina no aparelho que a mãe me deu no Natal. Quero voltar a comer a correr para não perder mais um episódio dos Morangos. Quero voltar ao pano de cozinha que insistia em usar para dormir. Quero voltar.
Também quero voltar a sentir o sabor daquelas bifanas com pão do pai. Quero voltar a sentir aquele cheirinho intenso a sair daquela panela enorme. Quero voltar a sentir aquele cansaço das 19h. Quero voltar aos dias em que comia a correr porque o comboio estava prestes a chegar. Quero voltar às tardes numa gare que era casa. Quero voltar a uma mesa que era cheia. Cheia de pessoas, cheia de comida. Quero voltar a um jantar a cinco, que depois passou a quatro. Quero voltar ao colo do pai. Quero voltar.
Também quero voltar a sentir o sabor daquele arroz de ervilhas da tia e daquelas arepas da madrasta. Quero voltar.
E ainda que a tenha comido muitas poucas vezes, também quero voltar a sentir o sabor daquela sopa de carne, arroz e massa da avó. Quero voltar a sentir a alegria de um fim de semana na aldeia. Quero voltar a sentir o conforto de um mini sofá e de um jantar às seis da tarde. Quero voltar a sentir o medo do toque do sino da igreja. Quero voltar a sentir as formigas a subir pelas minhas pernas acima enquanto me sujo de terra no quintal da casa da avó. Quero voltar.
Quero voltar a sentir o sabor e o conforto de todas aquelas comidinhas que fizeram parte da minha infância. Quero voltar a sentir o sabor e o embalo de todas aquelas comidinhas que, um dia, tiveram ligação a casa. Quero voltar a sentir o sabor, o conforto e o embalo de comidas de amor.
Hoje eu cozinho para mim. Cozinho para o meu irmão mais velho e deixo que ele cozinhe para mim. Mas eu não sei fazer arroz com molho. Não sei fazer empadão de atum. Não sei fazer bifanas com pão. Não sei fazer arroz de ervilhas. Não sei fazer arepas. Não sei fazer sopa com carne, arroz e massa.
Sei fazer mil e uma receitas. Sei fazer doces, sei fazer sopas, sei fazer carne, sei fazer peixe, sei fazer arroz, mas não sei fazer embalo. Não sei cozinhar conforto, nem casa, nem colo. Sei cozinhar o mundo, mas não sei cozinhar lembranças.
Não sei cozinhar aquele bolo do terceiro aniversário com uma pitada da presença do pai. Não sei cozinhar aquela entremeada no forno com tempero de colo de mãe. Não sei cozinhar aquela sopa Juliana com sabor a conversa matinal na porta do colégio. Não sei cozinhar aquela francesinha acompanhada pelas Polly Pocket da prima Maria. Não sei cozinhar aquele arroz de marisco com sabor a sermão. Não sei cozinhar aquelas castanhas assadas com vista para a lareira da avó. Não sei.
Sei fazer muita coisa, mas ainda não sei fazer o que um dia fizeram para mim. Sei fazer muita coisa, mas ainda não sei fazer o que um dia vão fazer para mim. Sei fazer muita coisa, mas ainda não sei fazer aquela receita com arroz à moda mãe, carne à moda do pai, legumes salteados à moda da tia, vinho fresco à moda da avó, tarte de lima à moda do Jão e da Jô e pão caseiro à moda da irmã Massana.
Não sei fazer, mas um dia eu vou saber. E quando souber, prometo partilhar o ingrediente especial desta receita que é “família”!