Sou Aurora

Entrevista de emprego

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Sou a Catarina, tenho 24 anos e sou licenciada em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação de Viseu. Fiz um estágio curricular numa revista de Desporto, Cultura e Lazer e adorei. Fui voluntária numa rádio comunitária de Belém. Atualmente trabalho num Burger King e tenho aprendido muito por lá. Quando estava no ensino secundário escrevi alguns artigos para um jornal regional, o Fozcoense. Também já geri as redes sociais de uma empresa de animação turística do Douro, já fui empregada num bar de uma estação ferroviária, já estive em formação para um call center e, de todas as minhas experiências, sinto que tirei sempre algo positivo. 

É mesmo isto que querem ouvir? 

No processo de arranjar um novo emprego o que mais me irrita são as entrevistas. Não gosto dos moldes em que são feitas. Não gosto daquele momento tenso em que me pedem para falar do meu currículo e das minhas experiências e eu o faço toda sorridente quando o que eu mais queria era perguntar se, por acaso, perderam tempo a ver o que me estão a pedir para descrever.  Não gosto do momento em que me perguntam porque desisti do meu mestrado e eu respondo que não me identifiquei, quando, na verdade, o que eu queria responder é que me custa ganhar o salário mínimo e desperdiçar grande parte dele numa Universidade que promete o mundo e apenas me dá um homem de meia-idade sentado numa mesa a ler PowerPoints e a falar da vida dele quando foi tirar uma pós-graduação qualquer em Harvard. Não gosto do momento em que me perguntam porque trabalho numa cadeia de fast food e eu respondo que, na altura em que comecei, era o mais fácil de conciliar com os estudos, quando, na verdade, o que eu queria responder é que só lá estou porque foi o primeiro emprego que me apareceu e porque não nasci num berço de ouro e ainda tenho contas para pagar.  

No processo de arranjar um novo emprego o que mais me irrita é o ar de quem se acha a última bolacha do pacote, mas se esquece que essa é sempre a mais esmigalhada. No processo de arranjar um novo emprego o que mais me irrita é a tensão entre o querer dizer o que me apetece e a pressão para dizer apenas o que apetece a quem está do outro lado.  

Sou muito mais do que os três defeitos que me pedem sempre para apontar. Sou muito mais do que as três qualidades que me pedem para enumerar. Sou muito mais do que o mestrado do qual desisti por não querer gastar mal o meu dinheiro. Sou muito mais do que a licenciatura que acabei com um modesto 14. Sou muito mais do que o estágio curricular que me fez chorar todos os dias e do que o lugar que me ofereceram lá e eu achei melhor recusar. Sou muito melhor do que o Burger King onde não aprendo nada e do qual me quero livrar. Sou muito melhor do que aquelas duas folhas do meu currículo onde escrevo tudo o que querem ler.  Sou muito melhor do que tudo isso e, da próxima vez que me pedirem para resumir o que sou e o que fiz, espero ter a lata de uma criança de 5 anos e dizer apenas o que me vai na alma.

Posto isto, é melhor recomeçar esta entrevista. 

Sou a Catarina, tenho 24 anos e a nota da minha licenciatura não define nem um terço de tudo aquilo que posso fazer por vocês. Por vocês e por mim. Em miúda sempre fui muito indecisa. Já quis ser professora, já quis ser advogada, já quis ser psicóloga, mas em 2018 decidi que queria ser jornalista e até agora isso ainda não mudou. Já fiz um semestre numa licenciatura que odiei e desisti. Já fiz um semestre num mestrado que nada me acrescentou e desisti, mas não. Isso não significa que vou desistir da a, de b ou de c por puro capricho.

Já vivi no centro do Porto, já vivi numa aldeia de Vila Nova de Foz Côa, já vivi em Aveiro, em Viseu, em Matosinhos e agora vivo em Vila Nova de Gaia, mas não. Isso não é uma coisa negativa. É bastante positiva, até. Adapto-me muito facilmente, não tenho medo da mudança e estou sempre pronta a recomeçar.  

Também já trabalhei num café, num call center, numa plataforma de conteúdo duvidoso, numa revista de Desporto e Cultura, numa rádio e agora num Burger King, mas não. Não tirei coisas positivas de todos os sítios por onde passei. Tirei foi um peso das costas a cada emprego que fui deixando para trás. 

Os meus 3 maiores defeitos são a impaciência, a teimosia e o não arriscar quando sei que posso errar, mas não. Isso não significa que eu estou sempre a bater o pé, nem que estou sempre a contrariar. Isso significa que reconheço o que há para melhorar em mim e que é nisso que trabalho todos os dias.  

As minhas 3 maiores qualidades são a minha capacidade de adaptação, a minha empatia e a minha curiosidade, mas isso não vos importa tanto. Já sei que preferem focar-se nos defeitos. 

Sei que não me vão perguntar diretamente, mas sim. Cresci no bairro. Sei que se vão aperceber disso quando me virem chateada, então mais vale esclarecer já, mas não. Isso também não é uma coisa má. Não sou irresponsável por ter crescido no bairro. Não sou burra por ter crescido no bairro. Não me estava a marimbar para a escola por ter crescido no bairro. Cresci no bairro e isso fez-me ser ainda mais responsável. Cresci no bairro e ativei a minha curiosidade ainda em miúda, para não ser como os outros. Cresci no bairro e sempre adorei andar na escola.  

Falo inglês, brinco com o português, patino no francês e arranho o espanhol. Já tentei aprender árabe. Já soube um pouquinho de holandês, já estudei o básico da língua turca e já andei num curso de mandarim.  

Nos meus tempos livres odeio dormir, para não perder o dia, mas adoro ficar sentada na cama a escrever. Gosto de viajar, mas a minha conta bancária não é fã. Adoro ir à praia, mas não é para ficar morena, é só para ver o mar. Também gosto de ler, de ver séries repetidas, de ouvir músicas da Hannah Montana e de ir ao cinema ver filmes de animação.  

Quanto ao futuro, não sei onde me vejo daqui a cinco anos. Não tenho planos. Quero estudar mais. Quero ganhar mais. Quero trabalhar mais (não em quantidade, apenas em qualidade). E quero ser mãe, mas não. Isso não significa que eu vou faltar ao trabalho todas as semanas porque os miúdos estão doentes. Também não significa que vou chegar atrasada porque o miúdo não queria comer de manhã e ainda tive de o levar à creche.  

Voltando atrás na entrevista, e focando na cara de nojo de quem me ouviu dizer que adorei o Politécnico e detestei a Universidade, não foi pela questão monetária. Foi mesmo pela questão humana. O Politécnico deu-me pessoas, deu-me o saber fazer. A Universidade deu-me um robot de 50 anos, deputado, e com uma cassete gravada nas cordas vocais. E isso teria funcionado se eu estivesse ali para devorar apontamentos, mas eu estava ali para aprender a ser aquilo que me prometeram – uma profissional. 

Assim, e com a sensação de que já disse tudo o que não queriam ter ouvido, espero que deixem essa coisa do ghost para os miúdos de 15 anos. Eu tenho mais para fazer além de passar a semana de 18 a 24 a pensar na chamada que vocês disseram que iam fazer, mas que nunca vão concretizar. São apenas dois minutos e um obrigado do outro lado da linha, acreditem. Não custa dar resposta. 

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