
Tinder, Happn, Badoo, Bumble, Boo, vocês escolhem. São várias as apps que existem e que nos prometem um mundo. Prometem um mundo onde não nos julgam, um mundo onde as aparências não importam e onde as ideias valem mais que mil imagens. Mas será que é mesmo assim?
Nunca fui muito fã de aplicações que vivem da imagem perfeita e da montra virtual da pessoa ideal. Nunca fui muito fã da futilidade de um Tinder, e muito menos do catálogo (e acreditem que é extenso).
Como primeira opção tenho o João. 25 anos, 1,82cm, vive na Prelada e come panquecas da Prozis ao pequeno-almoço. É engenheiro, tem olhos azuis e um cão chamado Bull. A primeira foto é dos abdominais e a última é do cão, só para dar um charme básico. Demos match e adivinhem qual foi a primeira mensagem dele?
- “Olá! Tudo bem?”
Dei-lhe vista. E ele voltou, mais tarde, com um convite para fazer conchinha. Dei-lhe vista. Não voltou.
Já não sei se algum deles se chamava João, mas sei que tive várias interações assim e percebi que não nasci para isto. Não nasci para o Tinder. Não nasci para uma caça ao tesouro encantado. Não nasci para fazer parte de um menu de degustação virtual. E sabem o mais irónico no meio disto tudo? O mais irónico é que não nasci para nada disto, mas foi nisto que encontrei o meu rodízio.
Se no meio da contagem de downloads pudessem ver a quantidade de vezes em que instalei e desinstalei a mesma aplicação, iriam ficar parvos. Instalava, usava por umas horas e voltava a desinstalar. Não tinha paciência para um menu cheio de carne e pouco peixe. Também não tinha paciência para o tempo de espera. E nem a entradas tinha direito. Ficava mil anos à espera e, no fim, era diretamente levada até à salsicha toscana, praticamente esturricada. Não tinha paciência.
Também não tinha perfil. Nem virtual, nem psicológico. Sempre fui o tipo de rapariga que gostava de perder tempo a ler biografias e, inocentemente, achava que os outros poderiam ser iguais. Gastava tudo o que havia para gastar até atingir o limite de palavras e deixava bem claro que um simples “olá, tudo bem” me iria aborrecer. Dado isto, perdia mais tempo a escrever do que a encontrar a foto perfeita da refeição que eu podia ser. Mas não se deixem enganar, também era dada ao básico. Não tinha cães, então colocava foto das gatas e sujeitava-me ao típico comentário de serem três gatas na mesma foto – Ah! Ah! Ah! Que original! Também não tinha muitas fotos num universo que fugisse daquele onde me sentia mais confortável - a minha casa - então ficava sem muitas opções. Tinha algumas fotos no espelho e nunca me esqueci de realçar os lados mais abundantes que “Deus” me deu – ou o demónio, depende sempre da perspetiva. No entanto, não era esta a pior parte.
A pior parte era o perfil que eu não tinha. O perfil psicológico. Gosto de tudo para o dia de ontem. Gosto de tudo no imediato e odeio ter de esperar. Assim, não era fã de esperar horas para que alguém escolhesse o meu jantar. Também não era fã de escolher qualquer almoço. Sempre fui muito esquisita. Não podia ter demasiada carne. Não podia ser muito vazio. Não podia ser só prato principal e sobremesa. Tinha de ter entradas e um suminho para acompanhar. Tinha de ser um menu histórico. Um menu com conteúdo e não apenas um menu. Ora, como é óbvio, eu estava no sítio errado. Estamos em pleno século XXI e o que eu queria mesmo era encontrar um bacalhau assado num catálogo de Fast Food.
Não encontrei o bacalhau que queria, mas encontrei alguns lanches que até eram dignos de saborear. Lembro-me, bem lá no início, de encontrar aquele que eu acreditava ser o amor da minha vida. Ele começou com uma piadinha básica sobre o tempo e, quando dei por mim, estava num comboio com destino a Ponte de Sor. Era alto, era inteligente, era engraçado e também era engenheiro (como o João do Bull). Foram uns meses engraçados até perceber que do Dão ao Alentejo ainda eram umas horinhas e eu tinha mais em que pensar. Entretanto, ficámos amigos, ou conhecidos (depende dos dias e das piadinhas que sugerem um remember). Também me lembro, bem lá no início, de um miúdo muito fofo. Era o Diogo (um dos muitos que encontrei por lá). O Diogo estudava Desporto, era baixinho, escuteiro e um mimo para a vista das meninas. Marquei encontro com ele na entrada do Fórum de Viseu e, admirem-se, não apareci. Passei por lá para ir para a aula das 11h, mas bem escondidinha para ele não me ver. Sei que esteve lá umas duas horas à minha espera e, mesmo assim, ele ainda quis tentar marcar de novo. Não o fiz por maldade, foi por amizade. No entanto, e se na altura eu soubesse o que sei hoje, ainda tínhamos saído para jantar.
Saindo do início e passando lá para o meio, encontrei outro Diogo. Este não era de Desporto, era de engenharia (e nesta altura eu já sabia que o meu ponto fraco eram os meninos das engenharias). Acho que beijava bem, segundo me lembro, mas tinha uma imaginação ironicamente incrível e deixou-me pendurada numa ida à biblioteca. Ainda assim, estive com ele mais algumas vezes, mas ficámos pelo caminho quando ele disse que me queria assumir e eu só me queria divertir. Mais para a frente encontrei o Manuel e o José e, nestes dois, eu tinha o oito e o oitenta. O Manuel era mais calmo, mais pacífico e um nerd daqueles que sempre me agradou. Já o José... O José era um típico bad boy. Era um miúdo que não parava quieto e que sabia como fazer qualquer uma cair a seus pés. Ficámos amigos (coloridos durante bastante tempo). E sim, tanto um como o outro eram engenheiros.
Numa época mais final e que ditava o meu desaparecimento do Tinder, encontrei o Eduardo e, quer acreditem, quer não, este não é engenheiro. É advogado. A Covid tinha aparecido há pouco tempo e estávamos todos presos em casa. Estava aborrecida e, como sempre, tinha acabado de instalar o meu menu virtual. Encontrei o Edu e um perfil que me deixou a rir. Sei que não fiz swipe right por achá-lo muito bonito, fiz porque o achei engraçado e porque tinha ar de inteligente. E, tal como costumo dizer, para burra já chego eu. Foram uns bons meses de conversa, mas ele “desapareceu” quando começou a namorar e está tudo bem com isso. A questão é que, quando isso aconteceu, vi-me obrigada a instalar, mais uma vez, o meu menu virtual.
Instalei, pela última vez, o Tinder e encontrei um rodízio muito bom. Era um mix de bacalhau assado, com temaki de salmão, craft beer, mousse de chocolate e tempura de camarão. Era tudo num só menu. Na primeira interação jogou um bocado à esquerda, mas logo corrigiu a posição. Falámos de barcos-casa, falámos de jornalismo, do meu encanto pelos bad boys de engenharia e do mau feitio que eu sei que tenho. Falámos de carrinhos de Fórmula 1, falámos do quanto ele jurava a pés juntos que não queria uma relação e acabámos por marcar o primeiro encontro. E sabem o pior? O pior é que encontrei um bacalhau assado, mas saí para comer um Fast Food. Mas não se preocupem. Há três dias dei-lhe massa com atum. É difícil manter um rodízio assim.