
Aos meus quadros inacabados, uma pinga de cor. Aos meus textos já terminados, uma pinga de dor. E a tudo o que eu ainda não comecei, uma pinga de amor. Uma pinga disto, uma pinga daquilo e uma pinga de quem não sabe o que pingar.
Começo coisas atrás de coisas e termino apenas o mínimo para continuar a contar pelos dedos. Começo com muita dificuldade e raramente termino com credibilidade. Começo com jeito de quem não sabe o que começar e termino com jeito de quem sabe que ainda está por terminar. Começo com mãos de incerteza e termino com mãos de destreza. Começo, começo, começo, e (quase) nunca acabo.
O meu problema é começar. Nunca sei como o fazer. E é por isso que começo tanto e termino tampouco. Começo. Não gosto. Não termino. Começo. Não gosto. Não continuo. Começo. Até me encontro lá no meio. Termino. Ouço música pelo meio. Vejo vídeos pelo início. Procuro inspiração lá pelo fim. Distraio-me. Distraio-me e não sei mais o que fazer, mas não é disso que vos venho falar hoje.
Hoje eu venho falar de todos os textos que começo e nunca acabo. Hoje eu venho, mais uma vez, partilhar os meus rascunhos.
Rascunho 1
O rascunho dos meus rascunhos
Já escrevi para mim e já escrevi sobre mim. Já escrevi sobre amor e sobre tudo aquilo que não me agrada nele. Já escrevi sobre comida e sobre as receitas que eu ainda não descobri. Já falei sobre a faculdade e sobre o dia em que desisti. Já falei sobre o Tinder e sobre o documento onde escrevo tudo o que levam daqui. Só ainda não falei de como vim parar aqui.
Comecei nas aulas de português, dei um salto para o Wattpad e, entretanto, vim passear com o SAPO. Comecei por querer lançar um livro de cartas, passei a querer lançar um livro infantil e hoje quero muito mais. Comecei por querer ser Fernando Pessoa, passei a querer ser Florbela Espanca e hoje quero ser uma mistura dos dois.
Hoje sou Catarina durante o dia e Aurora nas madrugadas. Hoje tenho o Macaco Rio, a Macaca Má e mais umas quantas personagens. Tenho o Rúben, a Carlota e o Francisco. Tenho a preguiça de quem escreve e a garra de quem reclama. Tenho as palavras de quem não sabe o que escrever e as histórias de quem tem o mundo para percorrer. Tenho o 8, o 80, o branco, o preto, o grande e o pequeno. Tenho parágrafo atrás de parágrafo e tenho o meu documento6.docx.
Rascunho 2
O mundo do avesso
Gatos de duas patas. Cobras de três cabeças. Cães de quatro línguas. Peixes de cinco pés.
Filmes de dois minutos. Séries de três segundos. Novelas de quatro episódios. Podcasts de cinco horas.
Pais de duas mães. Tios de três irmãs. Avós de quatro filhos. Primos de cinco padrastos.
Livros de duas capas. Estórias de três parágrafos. Fábulas de quatro escritores. Histórias de cinco décadas.
Semanas de dois dias. Dias de três minutos. Meses de quatro horas. Anos de cinco semanas.
Músicas de dois amigos. Sons de três colegas. Ruídos de quatro bichos. Programas de cinco carros.
Aviões de duas rodas. Carros de três âncoras. Barcos de quatro asas. Skates de cinco lugares.
Rascunho 3
A vida adulta
Vivemos no tempo da vida adulta
Da vida de quem quer fazer um mundo
E de quem muda o mundo por uma multa
Vivemos no tempo da correria
No tempo de quem corre para casa
E de quem se esquece de tudo o que queria
Vivemos no tempo da ansiedade
No tempo de quem tem o mundo nas mãos
E no do quem só queria sentir felicidade
Rascunho 4
Uma reclamação nunca vem só
Lembro-me, desde criança, de dizerem que sou teimosa, que sou resmungona e que tenho sempre o “não” na ponta da língua. Lembro-me de dizerem que tenho sempre algo a dizer e que nunca estou contente. E é verdade. A última palavra é sempre a minha, o “não” está sempre garantido e a reclamação nunca vem só.
E normalmente eu reclamo dos semáforos que não funcionam, do combustível que está caro, das rendas que estão absurdas e da direção da empresa que fez mais uma escolha errada. Mas hoje... Hoje eu vim reclamar de quem reclama.
Hoje eu vim reclamar de quem reclama do que eu reclamo. Vim reclamar de quem perde tempo a comentar tudo e mais alguma coisa. Hoje eu vim reclamar de quem não entende a ironia e de quem não percebe que, se não gosta, é só não olhar.
Rascunho 5
Loucos anos 20
Nos últimos posts falei de comida. De 2024 ainda estamos longe e, por isso, ainda não posso reclamar das infinitas listas do ano que ainda está para vir. Também já falei do Tinder, então não vale a pena falar do Bumble. Posso falar da Control, mas iriam ficar a saber tanto quanto eu. Pensei em falar do Pingo Doce, mas os preços estão tão caros, que eu não vos quero deprimir. Assim sendo, vamos falar da loucura dos 20 anos.
Já tivemos a loucura dos anos 20, mas para quem, como eu, nasceu no final dos anos 90, podemos falar dos 20 anos. Estou nos 24 e já admiti não gostar dos anos pares. Espero, ansiosamente, pelos 25 e, no entretanto, vou olhando para os 20’s de quem está à minha volta.
A Jéssica tem 25, já é mãe e diz que não quer ter outro filho. A Mariana tem 24, tem dois gatos e uma licenciatura e um mestrado. Vive pela capital e ainda quer viajar o mundo. O Ricardo tem 23, uma namorada e um emprego muito bom. O Jorge tem 21 anos, a calma dos 80 e o sucesso do Ratatouille.
Rascunho 6
A lista que eu não fiz
As ruas já estão iluminadas, já se veem umas luzes a piscar aqui e ali e umas árvores a aparecer aqui e acolá. O carrinho das castanhas já está na saída do metro e a fila para o shopping já ultrapassa o limite da circunvalação. O bolo-rei já se vende nos supermercados e a Ferrero Rocher já tem o seu lugar na TV. Já cheira a Natal.
Os convites para a ceia já aparecem de conversa em conversa e a maratona para comprar a melhor prenda também já teve o seu início. As listas do que é para fazer no próximo ano já começam a ser feitas e os objetivos atingidos nos últimos meses também já têm a sua graça. Mas onde andam os fracassos?
Ao contrário do que sempre disse que não faria, eu caí no erro de fazer uma lista de 12 objetivos para 2023. E sabem qual é a melhor parte? Falhei nos 11 primeiros e acertei no último e único que não vou partilhar. Não fiz nada do que tinha planeado fazer e está tudo bem com isso.
Rascunho 7
Uma equação nada complicada
Fazemos contas de 1+1, fazemos contas ao que fizemos ontem e ao que vamos fazer amanhã. Fazemos contas a pensar naquele fim de semana em Itália e naquele pulo ao Alentejo. Fazemos contas ao que vamos gastar na nossa casa e ao que já passámos desde aquela noite em Vila Real. Fazemos contas básicas, mas hoje eu faço a tua conta. Se 26+1 são 27, então 1+1 são 2, (...). Piroso, não é?
Já disse o quanto gosto de ti e até já te escrevi uma carta que não era de amor, mas era sobre ti. Já disse o que me agrada, o que me aborrece e o que me faz sorrir para ti. Gostava de te escrever algo diferente. Gostava de tirar o pingo de piroseira que já usei lá no início e gostava de voltar a repetir o quanto eu gosto de ti. No entanto, tudo o que é demais enjoa (...).
Ontem de manhã falámos sobre barcos-casa, pela hora de almoço falámos num jantar em Vila Real, na hora da sesta falámos de um date com Super Bock e pela hora do lanche falámos numa relação. No início da noite falámos da minha mudança para a tua cidade e num T2 com espaço de sobra para os dois. Falámos dos gatos que quero ter e do sofá que disseste que podias fazer.
Mas o ontem já foi ontem e hoje já é amanhã. E porque hoje é o amanhã de ontem, já podemos falar de outras coisas. Podemos falar daquela equação inicial e da proeza que conseguimos fazer.